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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

 Fernando Gregório - "Jogo de Sombras" (2002)






Um jogo de sombras por um autor igualmente sombrio, do qual, aparentemente, nada se consegue encontrar (à excepção do próprio livro, ainda disponível na Wook). 


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Não é do corpo que te vou falar
mas sim da sua dissolução nos abismos.
Não te falarei da construção das cidades
sobre o vácuo do quotidiano,
mas das fontes frias 
de um desassossego inerente à carne.
Dir-te-ei apenas que julgamos ultrapassar os factos com as palavras
de uma muda conveniência
esquecendo silenciosamente
as sepulturas
do vazio que nos devora.





FERNANDO GREGÓRIO, Jogo de Sombras

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Leonel Moura - "No futuro deitaremos fogo a tudo" (2000)




Leonel Moura (n. 1948), artista plástico, escritor, tem alcançado algum reconhecimento através da chamada arte robótica (escreveu peças de teatro e fez exposições com robôs), mas este "No futuro deitaremos fogo a tudo" (descrito pela edição como "romance breve") é, julgo eu, outra coisa, está noutra latitude. Digo julgo eu, pois é, até agora, o único (e feliz) contacto que tive com a obra do autor. 


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    Os vários canais mostram a mesma cena mas de diferentes ângulos, o que permite com o zapping ver o fogo como um holograma. A meio da encosta da Mouraria em subida para o Castelo, o magno incêndio alastra também para os lados. Explosões de botijas de gás ateiam labaredas em todas as direcções, carros de bombeiros esforçam-se sem êxito por penetrar no emaranhado de pátios e ruelas.
    A miséria é sempre estreita.
    Velhas aos gritos com as mãos agarradas à cabeça posam para fotografias que irão ser premiadas. Mesmo ao lado há quem tem atire panelas com água para cima de cinzas já inofensivas.
    - O Chiado repete-se. -  diz um intelectual que conquistou um enorme prestígio a dizer banalidades.
    Mas é pior, há muitos mortos e muitas perguntas. Como foi possível?




LEONEL MOURA, No futuro deitaremos fogo a tudo

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

 "The Diaries of Vaslav Nijinsky" - Paul Cox (2001)




"Eu quero chorar, mas não consigo, porque a minha alma dói demasiado. A minha alma está doente. A minha doença é uma doença da alma, não uma doença da mente."



VASLAV NIJINSKY (texto citado durante o filme)


terça-feira, 26 de agosto de 2025

 

Rasputin:


Corro sem alcançar o milagre: czares espalmam-se funestos nestas passadas para o colchão de granito. Viro-me a custo na almofada e a minha cara de monge fica de boca aberta a apontar para o céu. Nessa face morta vê-se a olho nu vinho envenenado. E patas de insecto. E cuspe. O açúcar em pó.



Miguelsalgado, AQUERONTE

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Josef Klicka - "L´orgue romantique tchèque " (2006)







Josef Klicka (1855-1937) compôs principalmente para órgão (órgão de tubos) e este álbum contém 4 peças para esse instrumento a solo. Tocados num único movimento, são temas longos, grandiosos, dignos da mais imponente das catedrais.








terça-feira, 13 de maio de 2025

 Georg Heym - "E os cornos do verão emudeceram..."


Deixo aqui mais um poema do mesmo livro do post anterior, ou seja, da antologia poética sobre o expressionismo alemão, editora Ática, e com tradução de João Barrento. Georg Heym nasceu em 1887 e morreu em 1912. "E os cornos do verão emudeceram..." foi escrito em 1911.








E OS CORNOS DO VERÃO EMUDECERAM...


E os cornos do verão emudeceram na morte das campinas,
Nuvem após nuvem se passou para a escuridão.
Mas as florestas bordejantes minguaram, perdidas,
Como acompanhantes de caixões embuçados em luto.

Fortemente, a tempestade cantou no terror de campos empalidecidos,
Entrou pelo choupal e fez vergar uma torre branca.
E como lixo varrido pelo vento, na terra vazia,
Lá em baixo uma aldeia jazia, amontoado de telhados cinzentos.

Mas mais para diante, até ao fundo do pálido horizonte,
Erguiam-se as tendas dos cereais de outono,
Cidades sem conta, mas vazias e esquecidas,
E sem ninguém passeando pelas vielas.

E a sombra da noite cantava. Já só os corvos
Erravam à chuva, sob nuvens de chumbo.
Solitários, ao vento, como na escuridão das frontes
Se escapam negros pensamentos nesta desconsolada hora.



       GEORG HEYM (tradução de João Barrento, do livro "Expressionismo alemão, Antologia poética")

sexta-feira, 28 de março de 2025

 Alfred Lichtenstein - "A caminho do manicómio"


“A caminho do manicómio”, texto, poema, do escritor alemão Alfred Lichtenstein (1889 -1914)  terá sido escrito em 1912 e foi publicado postumamente em 1962, juntamente com outros poemas, num livro com o título  "Gesammelte Gedicht" (em portugês creio que será qualquer coisa como "Poesia Reunida"). O autor, creio, não publicou nada em vida, pelo menos em livro. Morreu na frente de batalha durante a primeira guerra mundial.






A CAMINHO DO MANICÓMIO


Em ruidosas linhas as gordas carripanas
Passam por casas que parecem sepulturas.
Acocoram-se às esquinas carroças de bananas.
Um pouco de esterco alegra crianças duras.

Bestas humanas vão passando alienadas
No cenário de miséria da rua viva e baça.
Brotam trabalhadores de portas arruinadas.
Tranquilo, homem cansado atravessa uma praça.

Arrasta-se um caixão atrás de uma parelha,
Mole como verme, rua abaixo sem ruído.
E a cobrir tudo isto, farrapagem velha – 
O céu… com ar paganizado e sem sentido.






ALFRED LICHTENSTEIN (tradução de João Barrento, do livro "Expressionismo alemão, Antologia poética")


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

 Runemagick - "Envenom" (2015)





E enquanto a fúria do tornado sobe
a percorrer o mar todo às guinadas
era como se ouvisse a saraivada
do fogo que comia toda a terra
com os dentes febris do pesadelo




NOÉMIA SEIXAS, Navio fantasma (do poema “O cão da morte ladrou”)









segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

 Mário Dias Ramos  - "O Logro" (1999)




Na realidade, esta obra do escritor Mário Dias Ramos foi editada pela primeira vez em 1963 e esta publicação mais recente é uma segunda edição, uma edição especial pela editora Dafnis (que creio já não existir) e com texturas, imagens, fotografias, de Miguel Louro, num estilo bem escuro, naturalmente em sintonia com o carácter do texto. Aliás, é até estranho que o livro tenha escapado incólume pela censura da época. Pelo menos não vi nada em sentido contrário.


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“…caímos num poço devasso e profundo, negro e repulsivo. O empregado traz-nos um café tão preto como a sua existência servil e angustiada. À nossa volta caras hostis afundam-se em jornais abertos com colunas de notícias que mentem num esgar de compromisso pactuante. O fiscal observa a ordem do serviço. Uma multidão entra e sai, apressadamente, com um ar indefinido no rosto. Intelectuais dissolutos olham-se na penumbra de um horizonte que se fechou hermeticamente. Um sol que brilha falso e não aquece os homens, envolve este ambiente de insalubridade mental e irreconciliação humana. Entretanto, nada sucede. Os homens nascem e morrem e, de um estado ao outro, a velocidade é a mesma do som. Nascem e morrem sem dar quase por isso…”




MÁRIO DIAS RAMOS , O Logro