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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

José Viale Moutinho - "Ocasos de iluminação variável" (2005)

 

 
 
Ocasos de iluminação variável perfeitamente escuros.
 
 
 
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4.
 
 
As casas sobrepõem-se, vazias, nos centros históricos
das cidades. As casas apodrecem, povoam-nas o medo,
ratazanas e os perdidos passos dos que andam
pelos quartos alugados, dos que deixam pelos cantos
seringas, elásticos e limões espremidos.
Mancebos de passagem, envolvem a cabeça perdida
em toalhas molhadas e escondem os braços picados.
 
As casas perdem os seus números, abandonadas,
silenciosas, escuras. Os infelizes gatos negros
atravessam as portas sem almofadas nem história.
As aranhas lançam as suas teias horas a fio e a voz
de  alguém desliza, inaudível, descomposta, feia, rude.
 

 
 
 
JOSÉ VIALE MOUTINHO, Ocasos de iluminação variável
 
 

 
 
(editora: Editora Ausência) 

sexta-feira, 29 de novembro de 2019



ABRAÇO


Houve alguém que entrou com os braços abertos e a pedir que o abraçassem. Houve então uma pessoa que respondeu ao pedido e abraçou-o. Alguém abraçou com força e não queria largar a pessoa. A pessoa começou a sentir-se sufocada e pediu ajuda. Duas pessoas responderam ao pedido e separaram-na de alguém. Alguém queria abraçar outra vez mas as pessoas empurraram-no para fora. Alguém abriu os braços e foi-se embora com eles abertos. A pessoa sufocada recompunha-se. As duas pessoas que a separaram de alguém ainda estavam perto dessa pessoa sufocada. Das que empurraram alguém para fora, uma já estava na posição inicial. As outras regressavam aos poucos.


 
Miguelsalgado, vidro duplo

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Yulia Lykhotvor - uma interpretação para a banda Clouds






Surpreendente a força, a potência dos vocais desta desconhecida cantora ucraniana Yulia Lykhotvor (com um álbum gravado, num projeto chamado Sidus Atrum, da qual é compositora e única presença), nesta interpretação que não foi aproveitada (após um concurso  interpretativo para o álbum «Dor II») pela banda inglesa Clouds. Pena, pois este pujante vocal feminino encaixava como uma luva nesta composição doom, de passagens etéreas, transcendente, melodicamente conseguida.



sexta-feira, 27 de setembro de 2019



OUTRA PERGUNTA 


Morrer triste é a coisa mais triste do mundo, disse. Devíamos morrer todos felizes. De preferência com um sorriso na cara, não acha? A pessoa ao lado, não sabendo o que dizer, não disse nada. E o assunto ficou por ali, sem uma resposta à pergunta.





Miguelsalgado , vidro duplo 

sexta-feira, 13 de setembro de 2019


ATRASO


Aquele que já escorregou num pavimento húmido saiu ontem de casa por volta da hora habitual e chegou 2 minutos atrasado ao trabalho por causa de um camião que ia particularmente devagar e o impediu, durante alguns quilómetros, de andar à velocidade habitual e chegar com a habitual antecedência de 5-10 minutos ao seu posto de trabalho. No entanto, apesar do atraso, ninguém lhe chamou a atenção. No fim, acabou por sair um pouco mais tarde do que os habituais 10-15 minutos, para poder assim compensar o atraso. Por esse motivo, mesmo tentando acelerar mais um pouco o automóvel, acabou por chegar mais tarde que o habitual a casa. Por isso, a mulher, que habitualmente chega sempre depois dele, acabou por chegar mais cedo do que ele. Foi um dia diferente.





Miguelsalgado, vidro duplo

sexta-feira, 23 de agosto de 2019


VOZ


Veio pelas costas, tapou-lhe os olhos com as mãos e perguntou: quem é? Ele não reconheceu a voz e disse: não sei, quem é? Tens de acertar, disse-lhe a voz. Ele então começou a dizer nomes que lhe vinham à cabeça mas a resposta era sempre negativa. Estavam já há algum tempo naquilo quando ele disse: desisto. diz lá quem és? E a voz: tens de adivinhar. E ele: estou farto disto. Queria tirar as mãos da voz da frente dos olhos e não conseguia. Fazia toda a força que tinha para tirar aquelas mãos. E a voz: só quando acertares é que vais poder voltar a ver. Ele começava a desesperar. Debatia-se, suava muito, e as mãos sempre à frente dos olhos, sempre a deixá-lo na escuridão. Na realidade, não só não via, como também não conseguia sair do sítio. Chorava. Berrava: quem é que não me deixa ver nem andar? Implorava: deixa-me ver deixa-me sair daqui. Aos poucos foi-se conformando e já estava bem mais calmo quando finalmente disse: é a Morte. Mas tinha-se enganado outra vez.

 
 
 
 
Miguelsalgado, vidro duplo

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Miguelsalgado - "vidro duplo" (2019)


 
 
 
 
 
SEMENTES
 

De cada vez que deitava as sementes uma boca vinda do interior da terra abria-se e devorava-as. A meio do percurso apercebeu-se disso. Atirou as sementes e no momento em que a boca emergiu lançou uma corda à volta do pescoço da boca e puxou. A criatura saiu toda da terra. Era um homem nu e esquelético, que começou a correr assustado, mas que não foi longe, porque não tinha olhos. O homem das sementes recomeçou o trabalho sabendo que até aí o seu esforço fora em vão.
 
 
 
 
 
(Editora: artelogy)

terça-feira, 16 de julho de 2019

Dreams of Sanity - "Komodia II – The Dream", "Komodia III - The Meeting" e "Time to set the stones"



Os 3 títulos acima correspondem a tantas composições da banda austríaca Dreams of Sanity. As duas primeiras pertencem ao álbum «Komodia» (1997) e a última ao álbum «The Game» (2000).










Dormi um sono profundo,
Acordei numa longa manhã,
Recordei cada sonho
Como se fosse real:
À beira de lagos espelhava-se
Um céu roxo, verde azul branco
Um céu com estrelas
Um céu profundo
De que eu era mandatário
Aqui na terra.
E, como se fosse real,
Cada sonho deixava-me
Cansado de o relembrar
Exausto de o viver
Prostrado ser eu
Nesse sono de cem dias
E de cem noites




MIGUEL BRANDÃO, Maré de Luz… Ressaca Rara
 
 


 
 
 
 
 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

António Pedro - Antologia Poética (1998)








Autor multifacetado, a obra poética de António Pedro (1909-1966) permanece, tanto quanto julgo saber, muito pouco divulgada. Esta antologia abarca não só a quase totalidade da obra em livro (ficaram de fora os dois primeiros livros, rejeitados pelo próprio autor), como textos publicados noutros formatos (revistas, jornais,…). Inclui uma ampla introdução biográfica e múltiplas notas complementares.


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IV
 
 
Agora minto como respira um tuberculoso.
 
A verdade deixou-me sem filhos, como uma pedra,
E deu-me um coração para morrer,
A epiderme vibrátil que se deslumbra
A cada táctil assomo,
Para morrer,
Esta ambição de Deus, que me sufoca,
Para morrer,
Esta esperança, esta ansiedade e estas mãos,
Para morrer,
Esta dor cá no fundo (só cá no fundo!)
Para morrer,
Tudo para morrer!
 
Ficou-me a imaginação como o bordão dum cego
E, agora, minto como respira um tuberculoso,
Inutilmente – para morrer.
 
 
 
 
 
ANTÓNIO PEDRO (do poema “Os sete poemas do tédio estéril”)
 
 
 




(Editora: Angelus Novus editora) 

sexta-feira, 12 de abril de 2019

"Atmen" ("Respirar") - Karl Markovics (2011)







Um exorcismo pela proximidade física com a morte.



terça-feira, 12 de março de 2019

Àlex Susanna - "Bosques e Cidades" (1995)

 


 
 
 
Na introdução deste livro, por Rosa Alice Branco, pode-se ler:
 
“A poesia de Àlex Susanna é atravessada pela presença demolidora do tempo. Os seus poemas precipitam-se no nada, no vazio, na inércia, num vertiginoso trajeto do ser ao não-ser, que é a própria morte no seio da vida, o sem-sentido de um universo onde nada vale a pena – na irreversibilidade do tempo escreve-se a «menos-valia» de tudo quanto exista ou venha a existir.”
 
Àlex Susanna é um escritor espanhol nascido em 1957. "Bosques e Cidades" foi originalmente publicado em 1994.



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CONVERSAS NO BOSQUE


Passeamos por bosques que nos excedem
como por dentro de uma catedral,
uma gruta marinha de claridade incerta:
à deriva, caminhos como correntes
levam-nos onde querem
e damos voltas e mais voltas
sem saber onde vamos,
perdidos em nós mesmos,
mas envolvidos na penumbra,
cantos esvoaçantes e cheiros intensos:
todo o património destes grandes bosques.


As nossas conversas de súbito florescem
como esses cantos que sentíamos
embriagados de si mesmos,
e uma certa felicidade, intrusa,
infiltra-se em nós,
mas tudo o que floresce é logo espúrio,
e pouco a pouco sentimos por dentro,
como os seus frutos pesam
e caem, depois, rachados,
nesta terra sempre sombria
que nos mostra claramente
como tudo começa e acaba.




ÀLEX SUSANNA, Bosques e Cidades (tradução colectiva )



 
(Editora: Quetzal Editores)
 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

The Firstborn - Lions Among Men (2012)

 
 
 
 
1. Lions Among Men  (08:49)   
2. Without as Within  (09:13)
3. Wantless  (06:02) 
4. Vajra Eyes  (07:22)   
5. Eight Flashing Lances  (07:08)   
6. Nothing Attained, Nothing Spoken  (08:54)  
7. Sounds Liberated as Mantra  (07:19) 
 
 
 

 
 
«É Maya, é o véu da Ilusão, que, ao cobrir os olhos dos mortais, lhes faz ver um mundo que não se pode dizer se existe ou não existe, um mundo que se assemelha ao sonho, à radiação do sol sobre a areia, onde, de longe, o viajante crê aperceber uma toalha de água, ou ainda a uma corda atirada por terra, que ele toma por uma serpente.» 
 
 
 
SCHOPENHAUER, O Mundo como Vontade e Representação (tradução de M. F. Sá Correia)





 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Henrique Risques Pereira - "Transparência do Tempo" (2003)








"Transparência do Tempo" é o único livro em português do autor português Henrique Risques Pereira (1930-2003). Curiosamente (ou talvez não) o outro livro dele é em espanhol, publicado antes deste, com o título "Un Gato Partió A La Aventura". "Transparência do Tempo" (editado postumamente) inclui, segundo informação presente no livro, todos os textos dessa edição espanhola + inéditos.



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O vale abre-se à solidão e ao silêncio
e os desfiladeiros descem vertiginosamente para o invisível
e do fundo sobe a bruma leve irreal

A luz coloca sombras que se movem suavemente
e o pássaro negro fende o ar cristalino
e a memória das coisas esvaece com a noite

Calma majestosa erguida a toda a altura
a montanha projecta-se na imensidão do horizonte

Para trás o frenesim da vida dos homens
e o ranger de dentes dos esquecidos da sorte
e o caminhar de braços pendentes esgotados

Uma criança algures acaba de nascer
e a mãe protege-a de presságios que lhe gelam a alma

Levanta-se a luz de um novo dia
e nós
esquecidos do que sabemos
sorrimos para a vida




HENRIQUE RISQUES PEREIRA, Transparência do Tempo



(Editora: Quasi Edições)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

"Razredni sovraznik" ("O inimigo da turma") - Rok Bicek (2013)







"A morte de um homem afeta mais quem fica do que a ele mesmo"



THOMAS MANN (frase citada durante o filme)
 
 

sexta-feira, 2 de novembro de 2018



RESSURREIÇÃO


Estavas a descansar as pernas no banco do cemitério quando um som vindo debaixo da terra te fez levantar. Um cadáver batia na tampa do caixão. E o cadáver ergueu-se do caixão. E dirigiu-se para o exterior do cemitério. E começou a atirar ossos sujos ao ritmo da rua. E ainda hoje vira as costas quando alguém lhe pede para parar.


Quando tentas-te ligar música disseram-te que não se pode ligar música no cemitério. Ainda hoje te dizem que não se pode ligar música no cemitério. E querias bater em quem te diz que não se pode ligar música no cemitério. Mas desequilibras-te com a rajada de vento soprada por palavras de deus apoiadas numa parede sólida. Por estar unida de cima a baixo com sangue sujado entre os espaços vazios.


Resignação no espaço entre os dentes caninos. Trepanação no crânio. O que viste sobrar de um doente foram manchas no tecido. Depois a máquina de lavar apagou-as. Bodega. Degredo. Imprecisão. Dor. E matéria funerária passiva. Eis o Reino.


Abres a porta de casa com um pé-de-cabra. O monge de costas no quadro de C. D. Friedrich desata a correr pela paisagem. A olhar para trás. Para confirmar se está a ser perseguido pelo teu medo.


Estão aí os corpos em maratona sem meta. As formigas que carregam 9471 vezes o seu peso às costas. As pessoas com movimentos perigosos na folha do electrocardiograma. As cabeças debaixo dos secadores individuais. Pétalas mecânicas a crescer no vegetal no vaso.


Está aí o colar sentimental com um preço. Os tapetes para limpar a sujidade antes de entrar. Gente que anda às voltas com pressentimento de abalo. Bichos subterrâneos que passam de passeio para passeio. De sala para sala. Bichos subterrâneos que passam para onde podem.


Estão aí os olhos a fechar. E trazem o sono à tarde que não te pertence. Mordaças em miolos expostos ao ar condicionado. Casulos prestes a rebentar em Negrume cósmico.


Onde se deve guardar a dor sem doer? Aguarda por um som que te diga onde se deve guardar a dor sem doer.


No habitat natural vês a queda de um fio de vómito preso na pétala. Mãos com Parkinson dividem o pão. Desaguas nas caras da secção de necrologia do diário informativo. Há ossadas espalhadas junto aos teus pés magoados. Abraças um suicida morto no princípio do dia. Apontas para os dentes no céu e deixas cair os olhos.
Debaixo da tua máscara sobre a tua máscara sobre a tua máscara sobre a tua máscara há pele translúcida dentro do sepulcro.


Ressuscita-te fantasma, fantasma. 






Miguelsalgado, Escuro

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Bellow The Sun - "Cries of dying stars", Dawn for nobody" e "In memories"

Os 3 títulos acima são composições da banda russa Bellow The Sun. "Cries of dying stars" pertence ao álbum «Envoy» (2015). As outras duas fazem parte do álbum «Alien World» (2017).


 
 
 
 
Agora que o mundo deslizou como uma bola
das mãos de deus e cruza a noite vazia
dos espaços sabemos que a morte nos espera
disposta como uma refeição à nossa mesa.
Rendemos à sorte de cada minuto as nossas
vidas e corremos de monte em monte como
correria uma canção levada pelo vento.
 
 
 
PAULO TEIXEIRA, Inventário e despedida
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Egito Gonçalves - "Entre mim e a minha morte há ainda um copo de crepúsculo" (2006)





Obra póstuma de Egito Gonçalves (1920-2000), com um ou outro texto incompleto, num livro mais do que Completo.

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CINEMA RIVOLI


Por dez tostões subíamos à galeria.
Do alto víamos as divas, aprendíamos
a beijar -- mal, é evidente: o código
Heyes lá estava para nos impedir
de estremecer a fundo. A Garbo punha
nas nossas namoradas olhares lânguidos.
As divas eram todas grandes damas,
nunca se despiam sob o olho guloso e,
mesmo na banheira,
apareciam sob uma espessa cortina
de espuma: a inveja dos que em casa
se lavavam com sabão azul. E havia
(coisa fina!) os que se masturbavam
com o olho nas pernas da Marlene. Lia-se
“O Cinéfilo”, a vida íntima das estrelas
ganhavam-se ideias para os bilhetinhos
que se passavam para as mãos das miúdas.
As aulas começavam à segunda-feira
com a briga dos adeptos
(ou já seriam fãs?) das duas “rivais”.
Depois a professora entrava, encavalitava
os óculos de aro metálico e dizia: Meninos,
hoje vamos dar... Ainda estávamos longe
da época Ava Gardner, da mítica Marilyn,
das pernas marlénicas da Cyd Charisse...
Longe das audácias dos anos noventa: mamas e
rabos, fuck explícito, palavrões a granel.
Cada geração inventa o seu reco-reco…





EGITO GONÇALVES, Entre mim e a minha morte há ainda um copo de crepúsculo





(Editora: Campo das letras)

terça-feira, 21 de agosto de 2018

"Lucent" - Chris Delforce (2014)
 
  
 




As atrocidades num dos muitos campos de concentração do século XXI.






Documentário completo:

https://www.youtube.com/watch?v=KArL5YjaL5U&t=3385s

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Chalice - "Static", "Abyss" e "As power turns to dust"


"Static", "Abyss" e "As power turns to dust" são 3 composições da banda australiana Chalice. "Static" pertence ao álbum «Augmented» (2003). "Abyss" ao álbum «An Illusion to the Temporary Real» (2001). "As power turns to dust" é do álbum «Chronicles of Dysphoria» (2000).




 
 
 
 
No quarto da penumbra
o Fruto arrastava o luto
atormentava os tormentos
como as aves sem ninho.
 
Às vezes semi-cerrava os olhos
à cor transitória
para no imediato os recolher
à sofreguidão do abismo.
 
As sombras conquistavam-lhe o desalinho nas ameias
e a melancolia devassava-lhe os poros
no resto da claridade.


 
 
CARMEN ROSAS DE SOUSA, O som primordial
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Emma Santos - "O Teatro" (1981)







Um grito nos Hospícios. Um grito abafado pelas paredes deste imenso teatro.



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As palavras estão velhas, ridículas. Mercadoria estragada, restos que por esquecimento se não limparam. Repugnante. As palavras ficam no exterior da cidade, nas zonas de entulho. Às palavras, lançam-se-lhes pedras, aos loucos, escarra-se-lhes em cima. As palavras loucas seguem o seu caminho, sozinhas, sem amor. Arrastam-se moribundas, vão para o hospital e pedem que as capem.



EMMA SANTOS, O Teatro
 
 
 
 
(Editora: Assírio e Alvim)

quarta-feira, 7 de março de 2018

"Çoğunluk" - Seren Yüce  (2010)


 
 
 
 
 

Filme centrado numa micro-família da Turquia moderna, em especial na complexa relação entre um pai autoritário e o seu melancólico filho (em torno do qual a ação gira). Banhado numa atmosfera densa, crua.


sábado, 20 de janeiro de 2018

Pantheist - "The loss of innocence", "Broken statue" e "Brighter days"


"The loss of innocence", "Broken statue" e "Brighter days" são três composições da banda britânica Pantheist. A primeira pertence ao álbum «Journey Through Lands Unknown» (2008). As outras duas ao álbum «Pantheist» (2011).










"E todos acenámos que sim com a cabeça: o homem das finanças, o homem da contabilidade, o homem das leis, todos acenámos que sim àquela mesa polida que, como um lençol de água turva, reflectia os nossos rostos, vincados, engelhados; os nossos rostos marcados pela faina, por decepções, pelo sucesso, pelo amor; os nossos olhos exaustos que continuam à espera, permanentemente à espera, ansiosamente à espera de algo da vida, que se esvai enquanto se espera – passa desapercebida, como um suspiro, como um lampejo – a par da juventude, da pujança, do romance das ilusões."



JOSEPH CONRAD, Juventude (tradução de Bárbara Pinto Coelho)







sábado, 2 de dezembro de 2017


PEDRA


Atirou uma pedra ao ar e jurou a si mesmo que não se mexia. Quando percebeu que vinha na sua direção fechou os olhos. A pedra ainda não tinha caído e já a sua cara era o esgar da dor.



 Miguelsalgado, escada rolante

terça-feira, 31 de outubro de 2017

"kreuzweg" ("Estações da Cruz") - Dietrich Brüggemann (2014)


 
 
 
 
 
A devoção à religião (católica) levada ao extremo. O trágico resultante daí.
 
 
 
 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

"La Mort de Louis XIV" ("A Morte de Luís XIV") - Albert Serra (2016)
 
 





Os últimos dias do "Rei-Sol", a definhar lentamente na cama, consumido pela dor da doença.



sexta-feira, 18 de agosto de 2017


ESCURIDÃO


Ele apercebeu-se que ela havia entrado numa artéria escura. Era essa a oportunidade que ele esperava. Foi atrás dela, agarrou-a pelo braço e disse-lhe: não quero que andes aqui nesta escuridão. Ela disse-lhe: larga-me o braço. Ele não largou o braço. Apertou-o com mais força. Ela disse que ele estava a magoá-la. Ele fez menos força mas não largou o braço dela. Disse a ela: sai desta escuridão. Ela disse para ele lhe largar o braço. Ela disse que gritava. Ele queria arrasta-la dali para fora. Queria-a levar de novo para a luz. Puxava-a para a artéria iluminada. Mas ela soltou-se. Correu pela escuridão adentro. E ele ficou a olhá-la a correr. Sozinho. Pasmado. Parado no meio da escuridão.




Miguelsalgado, escada rolante

terça-feira, 1 de agosto de 2017


PÁSSARO


Voltou do sítio onde tinha ido e constatou que tinha um pássaro morto em cima do capot. Se o pássaro caiu ou alguém o colocou lá foi a pergunta sem resposta que fez. Pegou num lenço de papel e removeu o cadáver do capot. Depois arrancou, enquanto no autorrádio passava música do momento e o pisca dava sinal de saída.




Miguelsalgado, escada rolante

terça-feira, 25 de julho de 2017


O PACOTE DE BOLACHAS


Levava um pacote de bolachas na mão. Um estranho aproximou-se dele e disse-lhe: de que é que são essas bolachas? E ele: são de morango. Não gostas de chocolate? Gosto mas apeteceram-me estas. Então passa para cá duas, disse o estranho. O estranho comeu uma e disse: para a próxima compra de chocolate, estas sabem a merda. Gostas de comer merda, cara de cu? O proprietário das bolachas disse, com os olhos em baixo, que não. Então o estranho deu-lhe uma palmada na mão que segurava o pacote de bolachas. Quase todas caíram no passeio. Mas uma rolou para a estrada e duas não chegaram a sair do pacote.




Miguelsalgado, escada rolante

sábado, 15 de julho de 2017


SOPA DOS POBRES


A pessoa estava na fila da sopa dos pobres. Saiu do seu lugar e avançou para o homem que tirava as sopas. Perguntou-lhe se já não havia mais. O homem que tirava as sopas confirmou que já não havia mais. A pessoa espreitou para o interior da panela e confirmou que já não havia mais. O homem que tirava as sopas bateu então com a colher nas paredes da panela e os que ainda estavam na fila perceberam que já não havia mesmo mais.




Miguelsalgado, escada rolante

terça-feira, 11 de julho de 2017

Miguelsalgado - "escada rolante" (2017)






ESCADA ROLANTE


Ia na escada rolante quando sentiu uma dor forte. As mãos foram ao local da dor e não trouxeram nada de lá.




(Editora: artelogy)

sábado, 17 de junho de 2017

Serpentcult - "Screams from the deep", "Weight of light" e "Templar"


"Screams from the deep", "Weight of light" e "Templar" são 3 composições da banda Serpentcult. Pertencem ao álbum «Weight of Light» (2008).









Dura é a luz
cortada
em lâminas
de vento
onde oblíqua
perpassa
a ferida
do tempo.




JOSÉ AUGUSTO SEABRA, Sombras de Nada





 
 
 
 
 
 
 


terça-feira, 16 de maio de 2017

"Chronic" - Michel Franco (2015)





Olhar realista ao dia a dia de um homem que cuida de doentes terminais.

sábado, 29 de abril de 2017

Anise Kolz - "Cantos de recusa" (1994)



 
 
 
 
 
"Contos de recusa", obra da escritora luxemburguesa Anise Kolz (n. 1928), foi pela primeira vez editada em 1993 com o nome "Chants de refus". A edição aqui apresentada resultou de uma tradução feita por vários escritores portugueses. Introdução (excelente) de Casimiro de Brito, que escreveu:
 
«Anise Kolz integra e depura os acidentes e catástrofes do homem, dos quais o primeiro foi o seu nascimento e, logo depois, a sua orfandade, as suas crispações, as suas dúvidas – e a voz que “dita” essa atmosfera um pouco sonâmbula (sem a complacência dos orientais nem o niilismo de um Cioran) é uma espécie de figura andrógina composta pela memória de um Abel definitivamente morto e a angústia de um Caim condenado a viver entre os “escombros dos deuses”. »
 
 
 
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O homem persegue Deus
sem saber que Ele se extinguiu
com o último dinossauro
 

Neste planeta de sofrimento
Deus já não existe

 
Os seus pães
transformaram-se
em pedras
 
 
 
ANISE KOLZ, Cantos de recusa
 
 
 
 
 
(Editora: Quetzal editores)
 

terça-feira, 21 de março de 2017

Allan Pettersson - Sinfonia n.º 7


 
 
 
O Compositor
 
 
Compositor e violetista sueco, Allan Pettersson (1911-1980) nasceu no seio de uma família pobre e hostil à sua precoce ambição musical. Apesar das contrariedades estudou violino, violeta e composição, tendo sido aluno, em Paris (através de uma bolsa), dos compositores Honegger e Milhaud, entre outros. Foi violetista na Orquestra Filarmónica de Estocolmo durante 10 anos, mas pouco depois, numa altura em que se dedicava quase exclusivamente à composição, deixou de poder tocar devido a doença (artrite reumatóide). A última década da sua vida foi passada entre casa e o hospital.
 
 
 
Sinfonia n.º 7
 
 
Estreada em 13 de Outubro de 1968, e composta num único movimento, é uma obra (até pela sua duração) notavelmente coesa, intensamente bela, profundamente trágica. Foi com a estreia da sinfonia n.º 7 que Allan Pettersson obteve reconhecimento como compositor no seu país natal (Suécia).
 
 
 
 



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"Jeanne, La Pucelle" ("Joana D`arc, a Donzela") - Jacques Rivette (1994)




«No dia 30 de Maio de 1431, na praça do Vieux-Marché, em Ruão, Joana D`arc é queimada viva. O tribunal, convocado pelos ingleses e presidido por Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, acaba de a declarar herética e relapsa.»


(retirado de  Os grandes julgamentos da História - O processo de Joana D`arc)




Esta grandiosa obra de Rivette (dividida em duas partes) centra-se no período anterior ao julgamento (nos 2 anos antes, desde Vaucouleurs, onde, pode-se dizer, a epopeia começa) e é não só uma poderosa evocação biográfica, mas também um sóbrio retrato da vida (ou parte dela) nos fins da idade média.





Filme completo:

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Green Carnation - "Journey to the end of the night" (2000)





1. Falling Into Darkness (2:33)
2. In The Realm Of The Midnight Sun (13:43 )
3. My Dark Reflections Of Life And Death (17:50)
4. Under Eternal Star (15:32)
5. Journey To The End Of Night (Part I) (11:28)
6. Echoes Of Despair (Part II) (2:30)
7. End Of Journey? (Part III) (5:09)
8. Shattered (Part IV) (1:35)







Em vão minha mente tentou agarrar o leme
A tempestade implacável não o permitia
Minh`alma baloiçava como uma barcaça em segunda mão
Sobre um mar monstruoso Sem mastros

As margens onde parariam?





CHARLES BAUDELAIRE,  As Flores Do Mal (tradução de Maria Grabriela Llansol)







terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"Stellet Licht" ("Luz Silenciosa") - Carlos Reygadas (2007)






Há uma angústia na natureza
e no coração do homem
que não morre
e na alvorada de cada dia
o drama imemorial recomeça.



DESMOND O`GRADY, As Novas Cartas


 



Trailer:

terça-feira, 22 de novembro de 2016

"Fado Canibal" - Timóteo Azevedo (2012)






Uma incursão à vida e obra de uma das figuras mais marcantes da música portuguesa: Adolfo Luxúria Canibal.





Documentário completo:

https://www.youtube.com/watch?v=FAFM3L6HQfM&t=2s



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Eduardo Valente Da Fonseca -  «Os criptogâmicos» (1973)




Criptogamia, s. f. Qualidade das plantas que não dão flores



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Os aquários gigantes



A cidade ao domingo ficava petrificada. As pessoas vinham inundar os cafés de sono. Ficavam horas com os cotovelos a furar as mesas. Olhavam para o exterior com olhos grandes e parados, como peixes imóveis num aquário gigante. Odiavam, mas o ódio não se via. Viviam como se um grande castigo os impedisse de levantar o braço para apontar uma arma à cabeça ou levar um tubo de comprimidos à boca. Não sonhavam. Apodreciam sem rumor como os detritos que vivem nas zonas sombrias das grandes florestas. Obedeciam freneticamente ao bolor. Amavam a traça e o pó. Viviam fantasmagoricamente de obediência. Eram todos tão desgraçados que já nem sequer despertavam piedade.




EDUARDO VALENTE DA FONSECA, Os criptogâmicos
 
 
 
 
 
(Editora: Paisagem Editora)

sábado, 17 de setembro de 2016

Paatos - "In that room", "Absinth minded" e "Téa"


"In that room", "Absinth minded" e "Téa" são três composições da banda sueca Paatos. Pertencem aos álbuns «Breathing» (2011), «Kallocain» (2004) e «Timeloss» (2002), respectivamente.






Alguém percorre
o mundo
ciente que o invisível
é a resposta
Alguém chora



                                             CARLOS PORTO, Poesia Cega






terça-feira, 2 de agosto de 2016

"The Woman" ("A Mulher") - Lucky Mckee (2011)






Drama, com um lado fantástico-terrífico, de uma família subjugada por um pai dominador que impinge à mesma, de forma cruel, a guarda de uma estranha mulher por ele raptada. Um filme onde a crueldade, a solidão, a manipulação, a violência e o medo estão fortemente presentes.




Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=Vn-UI33gHYU

terça-feira, 5 de julho de 2016

Dornenreich - "In Luft Geritzt" (2008)




1. Drang  (03:43)
2. Unruhe  (04:47)
3. Jagd  (03:17)
4. Freitanz  (02:59)
5. Sehnlauf  (05:30)
6. Flügel In Fels  (06:15)
7. Meer  (04:18)
8. Aufbruch  (04:52)
9. Dem Wind Geboren  (04:31)
10. Zauberzeichen  (03:57)




"O silêncio, o que é o silêncio? Perguntei ao mestre. – Uma floresta cheia de ruído."


CASIMIRO DE BRITO, Onde se acumula o pó?






terça-feira, 14 de junho de 2016

Funeral - "In Fields of Pestilent Grief" (2001)





1. Yield to Me (7:07)
2. Truly a Suffering (4:33)
3. The Repentant (6:41)
4. The Stings I Carry (5:40)
5. When Light Will Dawn (8:34)
6. In Fields of Pestilent Grief (1:45)
7. Facing Failure (6:13)
8. What Could Have Been (3:42)
9. Vile are the Pains (5:49)
10. Epilogue (4:29)




"Este horror de acordar – este era o saber; e exalava um sopro que parecia gelar as próprias lágrimas que lhe marejavam os olhos. Mesmo assim, tentou fitá-lo por entre as lágrimas, retê-lo, segurá-lo à sua frente para poder sentir a dor. Ao menos isso, embora atrasado e amargo, trazia algo do sabor da vida. Mas a amargura provocou-lhe uma náusea súbita; e foi como se visse horrivelmente na realidade, na crueldade da sua imagem o que fora destinado e cumprido. Viu a Selva da sua vida e viu a Fera; e percebeu, talvez pelo movimento do ar, que se erguia vasta e horrenda formando o salto para terminar com ele. Escureceram-lhe os olhos – estava próxima; e naquela alucinação voltou-se instintivamente para lhe fugir e atirou-se para cima da campa de cara para a terra."


HENRY JAMES, A Fera na Selva (tradução de Maria Teresa Guerreiro)







terça-feira, 24 de maio de 2016

"Gigante" - Adrián Biniez (2009)





A tentativa de aproximação a alguém de que se gosta pode ser uma luta épica. Filme trágico-cómico do realizador argentino Adrián Biniez.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

"Gypo" - Jan Dunn (2005)





"Devemos ir buscar a coragem ao nosso próprio desespero."

                                                                LÚCIO SÉNECA




Um filme à luz do «Dogma 95» ("câmara na mão", ausência de banda sonora, ...)





Trailer


quinta-feira, 31 de março de 2016

Communic - "Raven`s Cry"

"Raven`s cry" é uma composição da banda norueguesa Communic. Integra o álbum "Payment of Existence" (2008)




 
 
 
 
 
"Um terror confuso, imenso, esmagador, pesava na alma de Duroy, o terror desse nada ilimitado, inevitável, que destruía, indefinidamente, todas as existências tão rápidas e tão miseráveis. Curvava a fronte sob essa ameaça. Pensava nas moscas que vivem algumas horas, nos insectos que vivem alguns dias, nos homens que vivem alguns anos, nos mundos que vivem alguns séculos. Que diferença, no entanto, entre uns e outros? Algumas auroras a mais, eis tudo."
 
 
 
GUY DE MAUPASSANT, Bel-Ami (tradução de Jaime Brasil)
 
 
 
 
 

sábado, 12 de março de 2016

"Effie Gray" - Richard Laxton (2014)




Fascinante drama freudiano na Inglaterra do século XIX. Exemplarmente realizado e interpretado.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

João Coutinho e Castro - "Ecologia desesperada"









Um grito à destruição cega da vida. Retirado do livro «O tempo os Lugares», de 1987.



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ECOLOGIA DESESPERADA



morre a vida
os peixes morrem na água
a água morre primeiro
morrem as aves que bebem
a água
morte corrente

a cada um
a radioactividade
o cancro
a que é obrigado
nesta guerra
de extermínio
e rapina

os omos lavam mais branco
mas é preciso gritar
quanto custa
e quando lavam
o que levam


                                         
berlim, setembro de 1982




JOÃO COUTINHO E CASTRO, O tempo os Lugares

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

"A Cidade dos Mortos" - Sérgio Tréfaut (2011)





Visita de contornos surreais a um cemitério onde os vivos habitam lado a lado com os mortos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Terry Winter Owens - "Exposed on the Cliffs of the Heart" (2000)




1. Exposed on the cliffs of the heart (9:33)
2. Ariadne`s Crown (10:49)
3. Tocata (10:55)
4. Rendezvouz with Hyakutake (10:37)
5. The Rapture of Beta Lyrae (11:32)




A compositora

Terry Winter Owens (1941-2007) é uma compositora norte americana nascida em Nova Iorque. Começou a compor desde muito nova, influenciada por compositores como Chopin, Schumann e Liszt. Entre as suas composições contam-se obras para piano, orquestra, câmara e vocal. Compôs também para cinema. Foi pianista, violinista e professora de composição.



«Exposed on the Cliffs of the heart»

«Exposed on the cliffs of the heart» reúne composições para piano solo, uma das quais tocada a 4 mãos. Compostas entres 1990 e 1998, e inspiradas em diferentes temas (à excepção, creio, da Tocata), formam um álbum perfeito, repleto de beleza obscura, emocionalmente profundo.