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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Edward Bond - "Coros para depois dos assassinatos" (Quasi Edições, 2002)






"Coros para depois dos assassinatos", do escritor inglês Edward Bond, foi publicado pela primeira vez em 1983 sob o nome "Choruses from After the Assassinations".

Posteriormente, o autor escreveu:

“Depois dos Assassinatos é o título de uma peça. Eu decidi publicar apenas estes coros. Originalmente, eram discursos das personagens da peça. Chamei-lhes coros na esperança que encorajasse uma atitude de reflexão.”

E.B.

Dezembro 1997

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Amor


As pessoas casam por amor
Depois passam uma vida de escravidão para pagar a cama
Acabam zangados e estúpidos com ódio do mundo
Eles têm filhos para amar
Depois amaldiçoam-nos e alguns deles partem os braços
O jogador dá as suas últimas libras a uma rapariga num beco e depois pontapeia-a insensivelmente para as recuperar
O amor levou-os para o beco
Não digam que o amor é mais puro do que aquilo
Os Generais têm misseis porque nos amam
Quando fritarmos eles vão chorar por nós nos seus bunkers
Vocês aguentam em qualquer cabana desde que lá dentro haja amor
Desde que consigam dizer “amor torna-nos humanos” não precisam de se preocupar em agir como humanos e limpar a confusão
Vocês patinham na vossa pilha de estrume e apelidam-se de santos
Se um Deus fez o mundo pôs amor nesse mundo para que não conseguíssemos torná-lo melhor e mostrar que não precisamos de Deuses
Bom se Deus fez o mundo espero que tenha lavado as mãos logo a seguir
Aonde começou a loucura?
Houve uma era de milagres
Apareciam constantemente notícias de milagres
O mar dividiu-se e um exército atravessou-o!
Os cegos conseguiam ver e saltaram sobre os seus paus!
Mortos apareceram de repente como fugitivos!
Cinco mil desempregados numa praça?
Está bem – alimentem-nos com este pequeno cesto de pão e peixe
Tempestade no mar? Não construam um bote salva-vidas – deixem-nos caminhar!
Maus vizinhos a pedirem constantemente o vosso cortador de relva?
Ofereçam-lhes o cortador de relva!
Agora eles enegrecem o vosso olho porque não lhes cortaram a relva?
Dêem a outra face!
Outro milagre? – por que não?

A era dos milagres está morta e será preciso mais do que um milagre para a trazer de volta
É por isso que os homens saíram nus para a charneca para gritar à tempestade
Agora os mísseis estão na charneca




EDWARD BOND, Coros para depois dos assassinatos (tradução de Luís Mestre)


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