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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

António Ferra – “A Palavra Passe” (Campo das Letras, 2006)



 
 
 
 
Esta Palavra Passe abre olhos.
 
 
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Iraque e os cafés da tarde
 
 

O ruído dos cafés é um clássico da literatura de cidade,
sem evocações da natureza, do verde das frondosas árvores,
dos campos ao pôr-do-sol, do murmurar da água do ribeiro,
sem uma ave assinalando a mudança dos ventos.

Aqui, apenas se ouve cair a água no copo
«com ou sem gás?»,
talvez água das pedras ainda a lembrar
a natureza da alma empedrada neste café
onde eu agora estou, sorvendo instantes
na luz coada pelo ruído das vozes e das colheres
tilintando a tarde sobre o fotojornalismo,
preenchendo páginas volantes.

Também se bebe o espaço coberto da espuma da luz,
o espaço da sonoridade onde se tomem as paragens do tempo,
coffe break, dizem, enquanto as bombas rebentam no Iraque,
mas também os olhares, o enigma dos outros, mais
as secretas tranquilidades, as melancolias,
as raivas projectadas naqueles ali, nas mesas em redor,
e nenhuma granada deflagra a perturbar a sonolência dos jornais.

Num café como este, se chover lá fora ainda melhor,
distingue-se a zona de mesas de mármore à vista
das mesas com toalha à hora do lanche,
sem que neste deserto imenso passe um tanque
à espera da luta ou à espera de alguém que desista.

Sobraram ainda algumas mesas negras
nesta Lisboa de pastelaria,
onde, pelas cinco ou seis horas, surgem os garotos,
as meias de leite e as torradas,
um cheiro a manteiga quente derretida
pela tarde a meio, enquanto alguém corria
pelas ruas de Bagdade, três horas avançadas
sobre o tempo do meridiano de Greenwich,
Lisboa incluída, menos uma hora nas Lages dos Açores
nesta altura do ano, menos três horas em Nova Iorque
onde coffe se derrama sobre restos de flores.

E lá longe, uma mulher morre distraída
sem água e sem luz que lhe explique o mundo,
sem um galão morno, como este, a lembrar
um soldado americano de binóculos incolores
que não nos vê, nem sequer adivinha no radar
a chávena minúscula com sinais de açúcar
esquecido em fundo negro.



ANTÓNIO FERRA, A Palavra Passe
 
 
 

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