COZINHEIRA
Vapor sangrento a escapar da panela a ferver, a panela que dispara a tampa para o rosto humedecido de vapor de sangue, esta é a varinha mágica que fez a multiplicação da pústula, uma mousse estragada na taça dos vencidos, untar a forma com o pavor amarelo vindo do fundo da garganta do grito ovino, sofrimento encontrado nos botões adiposos do robot de cozinha, a carne orgulhosa a encolher-se com a violência dos golpes, no fogo até se desfazer no caldo da rotina, esta é a tarte fria para atirar à cara de deus, um ovo de Leda partido na gema a escorrer para a vala comum, abrir o frigorifico para agarrar o pernil da morte, o pernil temperado com o suor dos focinhos esmurrados, o tempero da gordura arrancada à força da síncope, a gordura para untar a urna, esta é a receita que alimenta um exército de condenados, de fantasmas, fantasmas a entrar uns atrás dos outros no recheio da carne, à temperatura de quem já não consegue dobrar as colheres com a mente, um rissol de crude para a entrada, no restaurante do Vatel eternamente com as cadeiras de pernas para o ar, um restaurante onde as baratas entram regularmente pelo nariz e os moscardos caem como granizo na panela da sopa, com o pão que o Diabo amassou ao lado do copo vazio, deste tacho levantou-se um aroma a solidão cósmica, mexe-se em desespero o corpo atirado à fervura, pedido insistente de socorro no prato a fumegar, insistente, como o apetite adiado nas unhas que trincharam o corpo por dentro, como a úlcera de Tântalo a fazer barulho, bocas famintas a entristecerem em torno do caldeirão do Sabbath, há uma massa dolorosa com a carne picada, olhos salteados a boiar no molho da nostalgia imprecisa, o resto da congestão nos talheres que saíram da máquina, a lançar azeite a ferver para cima dos que sobem a escada que dá acesso ao cabaz dos deuses, segredos mal passados que esfolam vivo o frango de gaiola, não mais a água crescerá nestas bocas sem oxigénio, o futuro sem a torneira que elimina o parasita da salada, risada em banho-maria, o banho-maria nas natas do céu, pedras da vesícula como aperitivo, o aperitivo a cair como uma laje na barriga, mais uma arroba de sacrifício para o caldeirão de Gundestrup, o fogão a cozinhar a crueldade na vizinhança, os legumes a casarem com os cogumelos do suicídio, desequilíbrio pelo avental a escorregar numa lagoa de óleo para fritura, o hálito da infelicidade não é aspirado pelo exaustor, fica aqui, junto com os restos a caírem do prato, como lágrimas do rosto de Heloísa e Abelardo, como As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, roda a náusea iluminada pela luz do micro-ondas, um assado a sair com a barriga grávida, para trinchar outro filho, adição das especiarias da decadência, espátula a raspar para o saco preto o cremoso, a reunir todos os ingredientes para fazer a ceia dos engasgados.



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