Leonora Carrington - "Em Baixo" (2002)
De repente, José, Santos, Mercedes, Asegurado e Piedosa estavam no meu quarto. Agarraram, cada um, uma parte do meu corpo e eu vi o centro de todos os olhos fixados em mim num fito sinistro. Os olhos de Don Luis dilaceraram-me o cérebro, e eu afundava-me num poço… muito fundo… O fundo desse poço era a paragem da minha mente para toda a eternidade na essência da mais completa angústia. Graças a uma convulsão do meu centro vital, vim à superfície com uma rapidez vertiginosa. Via novamente os olhos fixos, sinistros, e berrava: «Não quero… não quero essa força imunda. Queria libertar-vos, mas não posso, porque esta força astronómica destruir-me-á se não vos arruinar a todos… a todos… a todos. Devo destruir-vos a vós e ao mundo inteiro, porque isto aumenta… aumenta, e o universo não é grande o bastante para esta necessidade de destruição. Cresço. Cresço… e tenho medo, porque nada ficará por destruir.»
LEONORA CARRINGTON, Em Baixo (tradução de Carlos Leite e Leonor Castro Nunes)
