Carles Torner - "língua negra"
Este "língua negra" é um texto (poema) do escritor espanhol Carlos Torner (n. 1963). Retirei-o da antologia «No Cais da Poesia 2», publicada aqui há uns anos pela editora Teorema.
LÍNGUA NEGRA
Engoliu-me um espelho sem gengivas,
já não tenho dentes, não tornarei a morder
troncos de oliveira, cruzes, a orelha
cortada, sem nenhum dos duros
espinhos. Sangue, os lábios
cheios de sangue. Tu, recorta-mos,
recorta-me as pálpebras,
o sono perturbador,
rasga-me o véu do olhar
rebenta-me o peito inteiro com clarabóias
a golpes de pedra, esfola-me.
já não tenho dentes, não tornarei a morder
troncos de oliveira, cruzes, a orelha
cortada, sem nenhum dos duros
espinhos. Sangue, os lábios
cheios de sangue. Tu, recorta-mos,
recorta-me as pálpebras,
o sono perturbador,
rasga-me o véu do olhar
rebenta-me o peito inteiro com clarabóias
a golpes de pedra, esfola-me.
Enquanto
se derretem à beira da fogueira os dedos de cera,
o freio não se derrete: perdura.
A eternidade toda espera-me negra
de línguas como bandeiras.
Calo-me, três vezes me calo.
Lambo a sola de um sapato.
se derretem à beira da fogueira os dedos de cera,
o freio não se derrete: perdura.
A eternidade toda espera-me negra
de línguas como bandeiras.
Calo-me, três vezes me calo.
Lambo a sola de um sapato.
CARLES TORNER (tradução de Marta Ferré)

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