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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

 Miguelsalgado - "profissões" (2026)





EMPREGADA DE LIMPEZA


De joelhos à volta da sanita do cheiro, no chão frio, as filhas do chão frio, os joelhos do chão, dos sapatos sempre cagados por baixo, joelhos como quem pede a deus o fim do dia, pó no cabelo preso, o pó do espirro nas paredes, funambulismo pelo pano do vidro, nas janelas da rouquidão, já está outra vez tudo sujo, tudo para deixar a brilhar, o pó que se ilumina num piscar de olhos, excremento fora da areia perfumada, nariz inspira cheiro a excremento público, o cheiro castanho como recordação, a água preta no balde pesado, mão para o WC do terror, detergente da tontura snifada, detergente caliginoso que espirra para os olhos abertos, dedadas do paleolítico para tirar, pingos de gordura no calendário do ano que vem, aspirador desliza para o bolo do lixo, pelos oceanos de pó, um caralho encorrilhado visto a pingar fora do mictório, pintelhos na pedra lascada, na manga uma camada espessa de bactérias, o pano sagrado a deslizar sujo na tábua da lei, limpeza pela madrugada preta, este músculo esfrega mais que o melhor robot do mundo, a aposta de Pascal a lançar a submissão ao pó eterno, a seguir vêm os estábulos do rei Augias, flato inteiro atrás da porta trancada, debaixo do móvel está pó escondido, tesouros de pó, tapete mágico de pó, canção do desgaste na nódoa, persistente, como cagalhotos que não vão só com a descarga, saco de lixo até cima, o saco do cheiro, do suicídio, esqueleto debruçado dorido, na banheira da crosta terrestre, mijo no tampo orbita a estrela mãe amarela, acordar em sobressalto nos lavabos de Trainspotting, num mar de detergente sem eficácia, os pés sobre o milagre da água deixam sujidade acabada de tirar, as escadas limpas com a paciência de Job não levam ao céu, com a vassoura da feiticeira humilhada, a esfregona que perdeu a brancura do manto dos filósofos, o tempo a passar até que triunfe a secura, não se consegue chegar àquela sujidade antiga, a girândola colada é para tirar toda, o pé que foge na humidade da limpeza, a falta de ar a ganhar força, na mancha que já não sai, no canal da mancha que não leva a lado algum, depressão que já não sai, detergente no ódio, chão de arrasto, torneiras de pó, torpor na luva de látex, cabelos mortos a cobrir o ralo, lixo a cair como os segundos, pó sobe às narinas, as narinas da congestão, o suor que fecha o saco, papel sem higiene, aqui, a higiene do cheiro amargurado, apontar o detergente que infecta o habitat e o que me espera no nível superior é a canção do desgaste na nódoa persistente.




Miguelsalgado, profissões



(editora: artelogy)

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