OPERÁRIO FABRIL
As mãos engolidas pela máquina, o travão de segurança engolido pelo passar dos dias que mutilam, caem as pestanas na linha de montagem, na linha para perder o sentido, o Monte Athos a cair sozinho na urgência cimentada do lucro, a máquina a toda a velocidade na rotação hiperbólica, a desenhar um esfolamento de Sisamnes igual ao de Gerard David, um ordálio que mostra os dentes assusta pela escuridão da fábrica, a fábrica dos sentinelas sem sol, como deuses sem paraíso, Epimeteus a transformarem a matéria-prima em desastre, lágrimas reprimidas em produto final, pela chaminé da fábrica ergue-se o fumo branco da tristeza, o cheiro a sovaco sem o banho das ninfas, pelo tapete rolante desliza o mesmo rótulo para todos, o cheiro a fraldas para a incontinência dos que aqui ficaram velhos, a embalagem rebentada que liberta a consciência do cemitério, o cemitério a cada picar do ponto, não há refrigeração para preservar o dia em que pedalamos a bicicleta sem medo de cair, a gnosis no chão escorregadio da fábrica rasga-se com a hora extra, os dias a arrastarem-se como a leoa moribunda no palácio de Assurbanipal, aquele fio solto é um rastilho onde o fogo se arrasta para a explosão odiosa da manhã, flagelada, nem com uma piscina de óleo consagrado a engrenagem nos leva a lado algum, este é o botão que abre um fosso sem fundo debaixo dos nossos pés, um botão carregado à entrada e saída das últimas recordações, a dor a subir de temperatura, debaixo do ar condicionado colocado no frio máximo por deus, o peso da dor a rebentar a escala da báscula, acabou a matéria-prima que permitia o fabrico de um verso, começou a matéria-prima a desfazer-se no esquife de um corpo acabado, pelas janelas emparedadas entra a desistência de Hécuba levada pela onda, balanceiam os braços da violência da fábrica para a violência do pré-fabricado, depressão extrema no turno nocturno, nesta palete um monstro de nome Frustrado não consegue ser arrumado pelo esforço da empilhadora, que fica perdida nas marcas labirínticas desta catedral de marasmo, da indústria a vomitar uma poluição que avassala qualquer rei do mundo, as mãos unidas pela prece escondida atrás da mercadoria poluída, a prece por um curto-circuito que traga as trevas da liberdade, a liberdade envolta em camadas infinitas de celofane, do cacifo um enxame de olhos sem brilho agarra-se à cara como a raiz dos pêlos, santos de mãos atadas em economias de escala, o aloquete padronizado na linha de montagem que não pode parar, esta é a alavanca que aciona tremores, os 100 quilos caídos matam Zêuxis antes da última gargalhada, um fado corrosivo toma conta de todos os meios de produção a uma escala planetária.
Miguelsalgado, profissões
Sem comentários:
Enviar um comentário