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sexta-feira, 27 de março de 2026

 

OPERÁRIO FABRIL


As mãos engolidas pela máquina, o travão de segurança engolido pelo passar dos dias que mutilam, caem as pestanas na linha de montagem, na linha para perder o sentido, o Monte Athos a cair sozinho na urgência cimentada do lucro, a máquina a toda a velocidade na rotação hiperbólica, a desenhar um esfolamento de Sisamnes igual ao de Gerard David, um ordálio que mostra os dentes assusta pela escuridão da fábrica, a fábrica dos sentinelas sem sol, como deuses sem paraíso, Epimeteus a transformarem a matéria-prima em desastre, lágrimas reprimidas em produto final, pela chaminé da fábrica ergue-se o fumo branco da tristeza, o cheiro a sovaco sem o banho das ninfas, pelo tapete rolante desliza o mesmo rótulo para todos, o cheiro a fraldas para a incontinência dos que aqui ficaram velhos, a embalagem rebentada que liberta a consciência do cemitério, o cemitério a cada picar do ponto, não há refrigeração para preservar o dia em que pedalamos a bicicleta sem medo de cair, a gnosis no chão escorregadio da fábrica rasga-se com a hora extra, os dias a arrastarem-se como a leoa moribunda no palácio de Assurbanipal, aquele fio solto é um rastilho onde o fogo se arrasta para a explosão odiosa da manhã, flagelada, nem com uma piscina de óleo consagrado a engrenagem nos leva a lado algum, este é o botão que abre um fosso sem fundo debaixo dos nossos pés, um botão carregado à entrada e saída das últimas recordações, a dor a subir de temperatura, debaixo do ar condicionado colocado no frio máximo por deus, o peso da dor a rebentar a escala da báscula, acabou a matéria-prima que permitia o fabrico de um verso, começou a matéria-prima a desfazer-se no esquife de um corpo acabado, pelas janelas emparedadas entra a desistência de Hécuba levada pela onda, balanceiam os braços da violência da fábrica para a violência do pré-fabricado, depressão extrema no turno nocturno, nesta palete um monstro de nome Frustrado não consegue ser arrumado pelo esforço da empilhadora, que fica perdida nas marcas labirínticas desta catedral de marasmo, da indústria a vomitar uma poluição que avassala qualquer rei do mundo, as mãos unidas pela prece escondida atrás da mercadoria poluída, a prece por um curto-circuito que traga as trevas da liberdade, a liberdade envolta em camadas infinitas de celofane, do cacifo um enxame de olhos sem brilho agarra-se à cara como a raiz dos pêlos, santos de mãos atadas em economias de escala, o aloquete padronizado na linha de montagem que não pode parar, esta é a alavanca que aciona tremores, os 100 quilos caídos matam Zêuxis antes da última gargalhada, um fado corrosivo toma conta de todos os meios de produção a uma escala planetária.



Miguelsalgado, profissões


segunda-feira, 9 de março de 2026


 BOMBEIRO


Quando cheguei já a morte tinha chegado, o óbito na morte grotesca, intestinos que saltam na praia, sangue corre inconfundível, vê-lo a escorrer para o esgoto do cheiro, a morte dos mortos há muito atrás da porta trancada pelo ecrã, querem-se mexer a tempo e o tempo não obedece, ordem para o capacete do suor, rápido, mas já não há nada a fazer, velocidade fatal na sirene com sono, morte nas labaredas no céu rasgado, carne no sol tapado pela espessura do fumo, o dia pelas narinas do fumo, pelo fogo o grito como se o último segundo já não existisse, primeiros socorros já, mão, criminosa, estendida, alinhada no chão para contagem, provisória, vítimas, pedir ao deus queimado, sangue e chapa embrulhados, encarcerados, uma maca depressa, fogo que reacende como uma doença mal tratada, a explosão que despeja cansaço por todos os lados, cara irreconhecível, está incontrolável, maca compressa, as botas a correr na escada do socorro, socorro nas gargantas, gargantas em asfixia, uma varanda caiu-lhe em cima, as árvores pretas conquistaram o esforço, árvores mortas, daquelas que dão o sangue, sufoco nos ossos, não abanam as caudas do escombro nos ossos, o vento a polinizar o inferno, destroços agressivos no ar de Chagall, a partir deste helicóptero os mortos parecem formigas esmagadas pela sola, reacendimento a realidade, do machado com violência no vidro, pingam cacos afiados no café com leite, o ferido na ambulância da congestão pública, socorro na farda a marchar pelo tambor balofo, não sabemos quem está morto, capacete de cinzas, atiram-se como super-homens sem capa das janelas, esmagamento à lupa, cabeça de fósforo ao seio do quartel inflamável, a regressar de madrugada com o auto-tanque vazio, com a noite do sono no fundo do capacete, água que sabia a céu tem mortos a flutuar, hematoma pelo meio, chega a sobrevivência sem ter para onde ir, sem nada para lá dos pontos cardeais, onde tudo é cinzas a entrar pelos binóculos, a vida a perder-se na mão voluntária, está irrespirável, súplicas que abafam a vida, reforços já, estado de emergência nas chamadas a caírem como alicerces, manchas de breu no têxtil coçado, o extintor que apaga o Cócito foi todo gasto no simulacro, olhos fechados que ainda respiram a ferida, estamos encurralados, já se vêem as ligaduras pelo corpo todo, neste Hospital já não há lugar para a cura, carro de combate obsoleto, na estrada, pânico instalado, desfibrilhador a esgotar-se no peito que deixou de bombar, pedidos de socorro no paraíso de cada um, no lago artificial de uma deusa morta, morta neste inferno sem fim.




Miguelsalgado, profissões