Before The Rain - "Frail" (2011)
segunda-feira, 12 de junho de 2023
quarta-feira, 24 de maio de 2023
XII
entorpecemos como os gigantes de Papini no jardim
onde a muralha de Camelot se desfaz ao suspiro
extinto no Cristo vermelho por Lovis Corinth
religioso no diário louco em Gogol
Penitência de Canossa que se impõe
pómulos sem algodão
arroz como inquietas suricatas no Kalahari
o fundo do tacho raspado como os lares desta República Platónica
presos a uma Atlântida afundada
esta é a água que se agita sem sentido
depressão nos charcos de suor em Arcádia
o amrita a escorregar das garras que Paracelso encravou
salta Hanuman para o clube dos poetas mortos
Miguel de Molinos nos membros agarrados à Morte inquieta
abraço venenoso para um Laocoonte que vê a cilada na existência
enquanto Goya esvai fuzilamentos pelas orelhas de Maio
onde o calor é mais intenso perto da luz que ilumina os mortos.
quarta-feira, 10 de maio de 2023
Rosa Luxemburgo:
Sou com algemas: sacudo braços nos braços de empregados que magoam. Estou sem palco: apelar à paz é lançar a guerra. Ombros largos dissolvidos pela prisão umbrosa, clavículas com arte a dispersarem-se como migalhas sopradas: pessoas de partido igual afastam-se porque sim. Nunca mais a mão passará no pêlo do gato sossegado: para onde vou de mordaça? Querem o meu suor nas escadas como se não mancasse. Estou sem protesto: as pulsações a morrer às mãos de empregados que magoam. Sou para a necrópole: o que ainda podia ser já não será. Matamo-nos uns aos outros como anjos. A paz é sempre podre. Onde caio é feio: bonecas sem pernas e lodo poluído como manta.
Miguelsalgado, AQUERONTE
quarta-feira, 26 de abril de 2023
Miguelsalgado - "AQUERONTE" (2023)
(editora: artelogy)
quarta-feira, 15 de março de 2023
Son Frère ("O Seu Irmão") - Patrice Chéreau (2003)
GOETHE , Werther (tradução de João Teodoro Monteiro)
sexta-feira, 27 de janeiro de 2023
Marosa di Giorgio - "Passagens de um Memorial" (2022)
"Passagens de um Memorial" é uma antologia, uma escolha de textos que abarca a totalidade da obra poética da escritora uruguaia Marosa di Giorgio (1932-2004), uma obra que se move num universo muito próprio, muito marcado pela ligação à terra, à natureza e sua obscuridade.
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MAROSA DI GIORGIO, Passagens de um Memorial (tradução de Miguel Filipe Mochila)
(Editora: Cutelo Edições)
quarta-feira, 28 de dezembro de 2022
Ancestors - "Whispers", "First Light" e "Bounty of age"
Os 3 títulos em cima são composições da banda estadunidense Ancestors. As primeiras duas fazem parte do álbum «In Dreams and Time» (2012). A outra do álbum «Of Sound Mind» (2009)
TEIXEIRA DE PASCOAES O pobre tolo
quarta-feira, 16 de novembro de 2022
segunda-feira, 3 de outubro de 2022
Colette Peignot - Eu não habitava a vida mas sim a morte
Colette Peignot (1903 - 1938) não publicou nada em vida. Em 1939 sai no entanto uma edição que inclui vários textos (poemas, cartas, pensamentos) da autora, uma obra à qual se deu o título de «O Sagrado». É desse livro que se extrai o texto para este blog.
Tão longe quanto me lembro
os cadáveres erguiam-se diante de mim:
«Bem podes desviar-te, esconder-te, negar…
Tu és da família e serás dos nossos esta noite.»
E discorriam, meigos, amáveis e sardónicos
ou talvez,
à imagem desse cristo, o eterno humilhado, o insano carrasco
estendiam-me os braços.
Do Ocidente ao Oriente
de país em país
de cidade em cidade
eu caminhava por entre as covas.
Cedo fiquei sem chão.
Fosse relvado ou calçada
eu flutuava
suspensa entre o céu e a terra
entre o tecto e o soalho.
Meus olhos doídos e revirados
apresentavam ao mundo seus lóbulos fibrosos
minhas mãos, ganchorras mutiladas
transportavam uma herança insana.
Cavalgava as nuvens
com ares de louca desgrenhada
ou de mendiga de amizade.
E sentindo-me um tanto monstra
já não distinguia os humanos
que entanto amava.
Viram-me aterrar
no céu de Diorama
onde congelada atá aos osso
petrificava lentamente
até me tornar
um perfeito ornamento.
COLETTE PEIGNOT, O Sagrado (tradução de André Tavares Marçal)
terça-feira, 6 de setembro de 2022
Hilda Doolittle - a casinha
O texto que se segue, sem título, faz parte do livro «Notas sobre o pensamento e a visão», publicado originalmente em 1919 com o título «Notes on Thought and Vision». Hilda Doolittle (1886-1961) assinava com o pseudónimo H. D.
Cada casinha confortável acoita uma alminha confortável – e uma parede ao fundo impede completamente qualquer comunicação com o mundo além.
A maior preocupação do homem é aquecer a sua casinha e fortalecer a sua pequena parede.
HILDA DOOLITTLE, Notas sobre o pensamento e a visão (tradução de Leonor Castro Nunes)
terça-feira, 12 de julho de 2022
JOSÉ
És sem graça. Trazes túnicas para não tirar ao deitar.
És sem graça. Os percevejos pousam livremente no peito do teu pé.
Na banca do talho reparas nas carnes mortas.
Repara também como as moscas só param demoradamente nos pedaços parados.
Não precisas de olhar para o lado. Não há nada a dar socorro à tua ereção.
Exalas monotoneísmo dentro do teu eu.
Já vi um Hematófago enorme a trepar a parede do teu quarto enquanto dormias.
Queres perder todo o sangue sem dares por isso?
Miguelsalgado, Escuro
quarta-feira, 29 de junho de 2022
terça-feira, 24 de maio de 2022
"Los Santos Inocentes" - Mario Camus (1984)
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
DANIEL FARIA , Homens que são como lugares mal situados (excerto de um texto sem título)
terça-feira, 26 de abril de 2022
Vladimir Vlasov - "Improvisação para violoncelo e orquestra"
O compositor:
Vladimir Vlasov (1903-1986), compositor russo, estudou violino no conservatório de Moscovo e foi também maestro, professor, etnomusicólogo e director artístico. Compôs maioritariamente música vocal.
"Improvisação para violoncelo e orquestra"
"Estava a passar cá fora com dois amigos, e o Sol começava a pôr-se – de repente o céu ficou vermelho, cor de sangue – Parei, sentia-me exausto e apoiei-me a uma cerca – havia sangue e línguas de fogo por cima do fiorde azul-escuro e da cidade – os meus amigos continuaram a andar e eu ali fiquei, de pé, a tremer de medo – e senti um grito infindável a atravessar a Natureza."
EDVARD MUNCH
terça-feira, 15 de março de 2022
Joaquim Pessoa - "Fly" (1983)
Voo para um arco-íris engolido pela escuridão.
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JOAQUIM PESSOA, Fly
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
terça-feira, 21 de dezembro de 2021
quarta-feira, 17 de novembro de 2021
Dino Campana - "Sonho de Prisão"
Dino Campana (1885 -1932), escritor italiano, publicou um único livro em vida: «Canti Orfici» (1914), em português «Cantos Órficos». "Sonho de Prisão" é um dos textos que fazem parte dessa publicação.
terça-feira, 14 de setembro de 2021
The Wounded - "Garland", "Grace, Murder, Divine" e "We pass our bridal days"
Os 3 títulos acima são composições da banda holandesa The Wounded. As duas primeiras pertencem ao álbum «Monument» (2002) e a outra ao álbum «The Art of Grief» (2000).
sexta-feira, 9 de julho de 2021
sexta-feira, 18 de junho de 2021
João Camilo - "Como o vento"
"Como o vento" é um texto do escritor português João Camilo (n. 1943). Pertence ao livro «A mais nobre das artes», publicado em 1991.
Um ano novo. Tocaram os sinos
da minha aldeia à meia-noite?
O eco de bronze atingiu as margens da ribeira,
dança ainda sobre a sombra dos pinhais.
Um dia a torre da igreja cairá, o sino também.
E estaremos todos mortos, ninguém saberá que existimos.
Passámos como o vento que ninguém vê, nem sequer
deixámos pegadas no caminho que leva ao cemitério.
JOÃO CAMILO, A mais nobre das artes
sexta-feira, 7 de maio de 2021
terça-feira, 30 de março de 2021
VIDRO DUPLO
Perseguiu um homem durante 5 minutos e ao fim desse tempo, sem dizer nada, espetou uma faca no nó da gravata do homem. Na faca do crime só havia sumo de laranja.
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Antes de ir para a cama punha a cara mais séria que tinha e dizia: vou de viagem e não sei se regresso.
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Disse-lhe Bom dia. Ela respondeu Bom dia. Entraram os dois no elevador. Primeiro ela. Depois ele. Ele fixou os olhos numa parte da porta do elevador. Ela fixou os olhos nou-tra parte da porta do elevador. Ambos olhavam o movimento aparente das portas e pa-redes enquanto esperavam a sua vez de sair.
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O homem que foi salvo ontem do mar morreu hoje. Afogou-se na banheira.
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Estava sentado sozinho à mesa da esplanada. Um estranho aproximou-se dele e pergun-tou: posso-me sentar? Ele ficou surpreso e disse que sim embora desejasse ter dito que não. O estranho sacou de um baralho de cartas e disse: vamos jogar?
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Era alguém que só conseguia cagar se fosse à frente dos outros. Era alguém muito especial.
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Foi o vento que fez bater a porta?
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Estava de costas. Alguém gritou-lhe CUIDADO. Virou-se e ficou estático.
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Valem muito mais dois pássaros a voar do que um na mão.
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Foi atacado por parentes e amigos. Se sobreviver vai ficar dependente de parentes e amigos.
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Terão sido 29, e não 30, as facadas que o levaram à morte. A facada 30 foi um erro de observação.
terça-feira, 12 de janeiro de 2021
Luísa Brehm - não se pode escrever o mar
Aqui fica um texto, sem título, da escritora portuguesa Luísa Brehm (n. 1957), retirado do livro «Da Melancolia», publicado em 1987.
não se pode escrever o mar.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2020
Earth Drive - "Stellar Drone" (2017)
2.Known by the Ancients (07:01)
3.Dead Blood for the Royal Weather (07:14)
4.Two Temple Place (09:36)
5.Stellar Drone (10:59)
6.Are we Drowning in Digits (06:13)
7.Magical Train (05:00)
terça-feira, 3 de novembro de 2020
LABIRINTO
Ia com a cabeça direcionada para o chão, como sempre, e tudo ia como esperado, quando alguém repentinamente parou à frente dele. Ele tentou contornar essa pessoa sem nunca tirar os olhos do chão, mas quando se movia para isso a pessoa movia-se também na sua direção e não o deixava passar. Pediu licença para passar também com os olhos no chão mas também não adiantou. Pressentiu o pior. Alguém que o conhecia tinha-se posto à frente dele só para o chatear e agora teria de pôr os olhos na cara dessa pessoa se queria prosseguir. E, pior ainda, teria de estabelecer uma indesejada conversa, parecer bem disposto, falar pelo menos algumas palavras que agradassem àquela pessoa que não saía da frente. Levantou então os olhos na direção da cara da pessoa. À sua frente estava o Minotauro.
terça-feira, 29 de setembro de 2020
"Baran" - Majid Majidi (2001)
«Em 1979 a União Soviética invadiu o Afeganistão. Quando os soviéticos se retiraram 10 anos depois, o país tinha-se tornado uma sombra do que fora.
A devastação aliada a uma guerra civil, o domínio brutal do regime talibã e três anos de seca, levaram milhões de afegãos a fugir do país.
A ONU calcula que o lrão acolhe hoje 1,5 milhões de refugiados afegãos. Grande parte da nova geração nasceu lá e nunca esteve no seu país.»
(texto retirado da introdução do filme)
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
ESFORÇO
Fizeram um acordo. O primeiro deles a morrer regressaria para contar o que tinha visto. Um deles depois perguntou: e se depois de mortos não virmos nada? achas que devemos regressar para contar que não vimos nada? Mesmo que não haja nada para ver depois da morte eu, pelo menos, vou fazer um esforço para regressar. E acho que tu devias fazer o mesmo. E ficaram assim combinados. Cada um deveria fazer um esforço. Mesmo que na morte não houvesse nada para ver.
Miguelsalgado, vidro duplo
sexta-feira, 31 de julho de 2020
Os títulos acima são 3 temas da banda austríaca Dornenreich. Fazem parte do álbum «Durch Den Traum» (2006)
Foi andando ao acaso.
Passou um bosque.
O tempo enevoado deixou-o
vaguear. Não era necessário
dirigir-se para coisa alguma.
Foi andando ao acaso
perdia-se pelos campos
pela água da noite.
JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE, O Regresso Dos Remadores
terça-feira, 2 de junho de 2020
sexta-feira, 6 de março de 2020
que resiste ao tufão
à tempestade;
qualquer frio penetra porta, muro, escada
e corrói a força das paredes
em estruturas de pedra bem assentes;
qualquer vento apaga a chama na lareira
onde a lenha se cansa de ser brasa
e onde a angústia das cinzas já habita.
onde o jogo da morte se exercita.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
1. Ancient Arcane Scrolls (07:36)
2. Eclipse (06:40)
3. Under Scythian Command (02:55)
4. In the Arms of Hades (10:52)
5. Breath of the Pestilence (04:08)
6. Deathspell (04:01)
7. The Small (04:55)
8. Pharos (14:37)
9. Out of the Cage (04:32)
Sempre para o centro da terra
onde os metais com sede
sonham devoradoramente
o sangue dos mineiros.
Queimando já a pele e os cabelos
nas combustões do enxofre, do granito,
desço alucinado
com pedra a ferver nos pulmões
e pedra em chamas a acender-me os gritos.
Como unhas de mercúrio fulgente
crescem-me dos olhos e dos dedos
nunca sonhados medos, nunca tanto
fulgor de lágrimas doentes.
CARLOS DE OLIVEIRA, Descida aos Infernos
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
das cidades. As casas apodrecem, povoam-nas o medo,
ratazanas e os perdidos passos dos que andam
pelos quartos alugados, dos que deixam pelos cantos
seringas, elásticos e limões espremidos.
Mancebos de passagem, envolvem a cabeça perdida
em toalhas molhadas e escondem os braços picados.
silenciosas, escuras. Os infelizes gatos negros
atravessam as portas sem almofadas nem história.
As aranhas lançam as suas teias horas a fio e a voz
de alguém desliza, inaudível, descomposta, feia, rude.
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
ABRAÇO
Houve alguém que entrou com os braços abertos e a pedir que o abraçassem. Houve então uma pessoa que respondeu ao pedido e abraçou-o. Alguém abraçou com força e não queria largar a pessoa. A pessoa começou a sentir-se sufocada e pediu ajuda. Duas pessoas responderam ao pedido e separaram-na de alguém. Alguém queria abraçar outra vez mas as pessoas empurraram-no para fora. Alguém abriu os braços e foi-se embora com eles abertos. A pessoa sufocada recompunha-se. As duas pessoas que a separaram de alguém ainda estavam perto dessa pessoa sufocada. Das que empurraram alguém para fora, uma já estava na posição inicial. As outras regressavam aos poucos.
sexta-feira, 27 de setembro de 2019
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
ATRASO
Aquele que já escorregou num pavimento húmido saiu ontem de casa por volta da hora habitual e chegou 2 minutos atrasado ao trabalho por causa de um camião que ia particularmente devagar e o impediu, durante alguns quilómetros, de andar à velocidade habitual e chegar com a habitual antecedência de 5-10 minutos ao seu posto de trabalho. No entanto, apesar do atraso, ninguém lhe chamou a atenção. No fim, acabou por sair um pouco mais tarde do que os habituais 10-15 minutos, para poder assim compensar o atraso. Por esse motivo, mesmo tentando acelerar mais um pouco o automóvel, acabou por chegar mais tarde que o habitual a casa. Por isso, a mulher, que habitualmente chega sempre depois dele, acabou por chegar mais cedo do que ele. Foi um dia diferente.
sexta-feira, 23 de agosto de 2019
VOZ
Veio pelas costas, tapou-lhe os olhos com as mãos e perguntou: quem é? Ele não reconheceu a voz e disse: não sei, quem é? Tens de acertar, disse-lhe a voz. Ele então começou a dizer nomes que lhe vinham à cabeça mas a resposta era sempre negativa. Estavam já há algum tempo naquilo quando ele disse: desisto. diz lá quem és? E a voz: tens de adivinhar. E ele: estou farto disto. Queria tirar as mãos da voz da frente dos olhos e não conseguia. Fazia toda a força que tinha para tirar aquelas mãos. E a voz: só quando acertares é que vais poder voltar a ver. Ele começava a desesperar. Debatia-se, suava muito, e as mãos sempre à frente dos olhos, sempre a deixá-lo na escuridão. Na realidade, não só não via, como também não conseguia sair do sítio. Chorava. Berrava: quem é que não me deixa ver nem andar? Implorava: deixa-me ver deixa-me sair daqui. Aos poucos foi-se conformando e já estava bem mais calmo quando finalmente disse: é a Morte. Mas tinha-se enganado outra vez.
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
terça-feira, 16 de julho de 2019
Os 3 títulos acima correspondem a tantas composições da banda austríaca Dreams of Sanity. As duas primeiras pertencem ao álbum «Komodia» (1997) e a última ao álbum «The Game» (2000).
Dormi um sono profundo,
Acordei numa longa manhã,
Recordei cada sonho
Como se fosse real:
À beira de lagos espelhava-se
Um céu roxo, verde azul branco
Um céu com estrelas
Um céu profundo
De que eu era mandatário
Aqui na terra.
E, como se fosse real,
Cada sonho deixava-me
Cansado de o relembrar
Exausto de o viver
Prostrado ser eu
Nesse sono de cem dias
E de cem noites
sexta-feira, 24 de maio de 2019
Autor multifacetado, a obra poética de António Pedro (1909-1966) permanece, tanto quanto julgo saber, muito pouco divulgada. Esta antologia abarca não só a quase totalidade da obra em livro (ficaram de fora os dois primeiros livros, rejeitados pelo próprio autor), como textos publicados noutros formatos (revistas, jornais,…). Inclui uma ampla introdução biográfica e múltiplas notas complementares.
E deu-me um coração para morrer,
A epiderme vibrátil que se deslumbra
A cada táctil assomo,
Para morrer,
Esta ambição de Deus, que me sufoca,
Para morrer,
Esta esperança, esta ansiedade e estas mãos,
Para morrer,
Esta dor cá no fundo (só cá no fundo!)
Para morrer,
Tudo para morrer!
E, agora, minto como respira um tuberculoso,
Inutilmente – para morrer.
(Editora: Angelus Novus editora)
terça-feira, 12 de março de 2019
CONVERSAS NO BOSQUE
Passeamos por bosques que nos excedem
como por dentro de uma catedral,
uma gruta marinha de claridade incerta:
à deriva, caminhos como correntes
levam-nos onde querem
e damos voltas e mais voltas
sem saber onde vamos,
perdidos em nós mesmos,
mas envolvidos na penumbra,
cantos esvoaçantes e cheiros intensos:
todo o património destes grandes bosques.
As nossas conversas de súbito florescem
como esses cantos que sentíamos
embriagados de si mesmos,
e uma certa felicidade, intrusa,
infiltra-se em nós,
mas tudo o que floresce é logo espúrio,
e pouco a pouco sentimos por dentro,
como os seus frutos pesam
e caem, depois, rachados,
nesta terra sempre sombria
que nos mostra claramente
como tudo começa e acaba.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
4. Vajra Eyes (07:22)
sexta-feira, 11 de janeiro de 2019
e os desfiladeiros descem vertiginosamente para o invisível
e do fundo sobe a bruma leve irreal
e o pássaro negro fende o ar cristalino
e a memória das coisas esvaece com a noite
a montanha projecta-se na imensidão do horizonte
e o ranger de dentes dos esquecidos da sorte
e o caminhar de braços pendentes esgotados
e a mãe protege-a de presságios que lhe gelam a alma
e nós
esquecidos do que sabemos
sorrimos para a vida
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
sexta-feira, 2 de novembro de 2018
RESSURREIÇÃO
Estavas a descansar as pernas no banco do cemitério quando um som vindo debaixo da terra te fez levantar. Um cadáver batia na tampa do caixão. E o cadáver ergueu-se do caixão. E dirigiu-se para o exterior do cemitério. E começou a atirar ossos sujos ao ritmo da rua. E ainda hoje vira as costas quando alguém lhe pede para parar.
Quando tentas-te ligar música disseram-te que não se pode ligar música no cemitério. Ainda hoje te dizem que não se pode ligar música no cemitério. E querias bater em quem te diz que não se pode ligar música no cemitério. Mas desequilibras-te com a rajada de vento soprada por palavras de deus apoiadas numa parede sólida. Por estar unida de cima a baixo com sangue sujado entre os espaços vazios.
Resignação no espaço entre os dentes caninos. Trepanação no crânio. O que viste sobrar de um doente foram manchas no tecido. Depois a máquina de lavar apagou-as. Bodega. Degredo. Imprecisão. Dor. E matéria funerária passiva. Eis o Reino.
Abres a porta de casa com um pé-de-cabra. O monge de costas no quadro de C. D. Friedrich desata a correr pela paisagem. A olhar para trás. Para confirmar se está a ser perseguido pelo teu medo.
Estão aí os corpos em maratona sem meta. As formigas que carregam 9471 vezes o seu peso às costas. As pessoas com movimentos perigosos na folha do electrocardiograma. As cabeças debaixo dos secadores individuais. Pétalas mecânicas a crescer no vegetal no vaso.
Está aí o colar sentimental com um preço. Os tapetes para limpar a sujidade antes de entrar. Gente que anda às voltas com pressentimento de abalo. Bichos subterrâneos que passam de passeio para passeio. De sala para sala. Bichos subterrâneos que passam para onde podem.
Estão aí os olhos a fechar. E trazem o sono à tarde que não te pertence. Mordaças em miolos expostos ao ar condicionado. Casulos prestes a rebentar em Negrume cósmico.
Onde se deve guardar a dor sem doer? Aguarda por um som que te diga onde se deve guardar a dor sem doer.
No habitat natural vês a queda de um fio de vómito preso na pétala. Mãos com Parkinson dividem o pão. Desaguas nas caras da secção de necrologia do diário informativo. Há ossadas espalhadas junto aos teus pés magoados. Abraças um suicida morto no princípio do dia. Apontas para os dentes no céu e deixas cair os olhos.
Debaixo da tua máscara sobre a tua máscara sobre a tua máscara sobre a tua máscara há pele translúcida dentro do sepulcro.
Ressuscita-te fantasma, fantasma.


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