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segunda-feira, 9 de março de 2026


 BOMBEIRO


Quando cheguei já a morte tinha chegado, o óbito na morte grotesca, intestinos que saltam na praia, sangue corre inconfundível, vê-lo a escorrer para o esgoto do cheiro, a morte dos mortos há muito atrás da porta trancada pelo ecrã, querem-se mexer a tempo e o tempo não obedece, ordem para o capacete do suor, rápido, mas já não há nada a fazer, velocidade fatal na sirene com sono, morte nas labaredas no céu rasgado, carne no sol tapado pela espessura do fumo, o dia pelas narinas do fumo, pelo fogo o grito como se o último segundo já não existisse, primeiros socorros já, mão, criminosa, estendida, alinhada no chão para contagem, provisória, vítimas, pedir ao deus queimado, sangue e chapa embrulhados, encarcerados, uma maca depressa, fogo que reacende como uma doença mal tratada, a explosão que despeja cansaço por todos os lados, cara irreconhecível, está incontrolável, maca compressa, as botas a correr na escada do socorro, socorro nas gargantas, gargantas em asfixia, uma varanda caiu-lhe em cima, as árvores pretas conquistaram o esforço, árvores mortas, daquelas que dão o sangue, sufoco nos ossos, não abanam as caudas do escombro nos ossos, o vento a polinizar o inferno, destroços agressivos no ar de Chagall, a partir deste helicóptero os mortos parecem formigas esmagadas pela sola, reacendimento a realidade, do machado com violência no vidro, pingam cacos afiados no café com leite, o ferido na ambulância da congestão pública, socorro na farda a marchar pelo tambor balofo, não sabemos quem está morto, capacete de cinzas, atiram-se como super-homens sem capa das janelas, esmagamento à lupa, cabeça de fósforo ao seio do quartel inflamável, a regressar de madrugada com o auto-tanque vazio, com a noite do sono no fundo do capacete, água que sabia a céu tem mortos a flutuar, hematoma pelo meio, chega a sobrevivência sem ter para onde ir, sem nada para lá dos pontos cardeais, onde tudo é cinzas a entrar pelos binóculos, a vida a perder-se na mão voluntária, está irrespirável, súplicas que abafam a vida, reforços já, estado de emergência nas chamadas a caírem como alicerces, manchas de breu no têxtil coçado, o extintor que apaga o Cócito foi todo gasto no simulacro, olhos fechados que ainda respiram a ferida, estamos encurralados, já se vêem as ligaduras pelo corpo todo, neste Hospital já não há lugar para a cura, carro de combate obsoleto, na estrada, pânico instalado, desfibrilhador a esgotar-se no peito que deixou de bombar, pedidos de socorro no paraíso de cada um, no lago artificial de uma deusa morta, morta neste inferno sem fim.




Miguelsalgado, profissões

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

 Miguelsalgado - "profissões" (2026)





EMPREGADA DE LIMPEZA


De joelhos à volta da sanita do cheiro, no chão frio, as filhas do chão frio, os joelhos do chão, dos sapatos sempre cagados por baixo, joelhos como quem pede a deus o fim do dia, pó no cabelo preso, o pó do espirro nas paredes, funambulismo pelo pano do vidro, nas janelas da rouquidão, já está outra vez tudo sujo, tudo para deixar a brilhar, o pó que se ilumina num piscar de olhos, excremento fora da areia perfumada, nariz inspira cheiro a excremento público, o cheiro castanho como recordação, a água preta no balde pesado, mão para o WC do terror, detergente da tontura snifada, detergente caliginoso que espirra para os olhos abertos, dedadas do paleolítico para tirar, pingos de gordura no calendário do ano que vem, aspirador desliza para o bolo do lixo, pelos oceanos de pó, um caralho encorrilhado visto a pingar fora do mictório, pintelhos na pedra lascada, na manga uma camada espessa de bactérias, o pano sagrado a deslizar sujo na tábua da lei, limpeza pela madrugada preta, este músculo esfrega mais que o melhor robot do mundo, a aposta de Pascal a lançar a submissão ao pó eterno, a seguir vêm os estábulos do rei Augias, flato inteiro atrás da porta trancada, debaixo do móvel está pó escondido, tesouros de pó, tapete mágico de pó, canção do desgaste na nódoa, persistente, como cagalhotos que não vão só com a descarga, saco de lixo até cima, o saco do cheiro, do suicídio, esqueleto debruçado dorido, na banheira da crosta terrestre, mijo no tampo orbita a estrela mãe amarela, acordar em sobressalto nos lavabos de Trainspotting, num mar de detergente sem eficácia, os pés sobre o milagre da água deixam sujidade acabada de tirar, as escadas limpas com a paciência de Job não levam ao céu, com a vassoura da feiticeira humilhada, a esfregona que perdeu a brancura do manto dos filósofos, o tempo a passar até que triunfe a secura, não se consegue chegar àquela sujidade antiga, a girândola colada é para tirar toda, o pé que foge na humidade da limpeza, a falta de ar a ganhar força, na mancha que já não sai, no canal da mancha que não leva a lado algum, depressão que já não sai, detergente no ódio, chão de arrasto, torneiras de pó, torpor na luva de látex, cabelos mortos a cobrir o ralo, lixo a cair como os segundos, pó sobe às narinas, as narinas da congestão, o suor que fecha o saco, papel sem higiene, aqui, a higiene do cheiro amargurado, apontar o detergente que infecta o habitat e o que me espera no nível superior é a canção do desgaste na nódoa persistente.




Miguelsalgado, profissões



(editora: artelogy)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 Earth Drive - "Helix Nebula" (2020)





A velocidade da luz é aquilo que protege a realidade das coisas, pois que é ela que nos garante que as imagens que temos delas são nossas contemporâneas. Toda a verosimilhança de um universo causal desapareceria com uma mudança sensível dessa velocidade. Todas as coisas interfeririam numa desordem total. Isto é tanto mais verdade quanto esta velocidade é o nosso referencial, o nosso Deus e representa para nós o absoluto. Se a luz atingir velocidades relativas, não haverá mais transcendência, não haverá mais Deus para reconhecer as suas criaturas, o universo cairá na indeterminação.



JEAN BAUDRILLARD, As Estratégias Fatais (tradução de Manuela Parreira)